CRIATIVIDADE COLETIVA - por Edmour Saiani

Idéias dos outros, as melhores e mais baratas. Aliás, os grandes momentos de criatividade das empresas onde trabalhei nasceram de praticar uma atividade que o Tom Peters, nos idos anos 80 e 90 chamava de gerência de fuçar. Sim fuçar...
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Procurar sarna para se coçar olhando o que os outros estão fazendo. Pode parecer estranho, mas esta é a melhor forma da gente ser criativo. Ao contrário do que muita gente pode pensar, competição exacerbada acaba com a criatividade. E tudo começa cedo. Quando a gente é um entre milhões de espermas tentando alvejar o óvulo. Como a gente venceu competindo aí, leva este modo de agir para toda a vida. E acha que vai ser bem sucedido sozinho. Na escola é proibido de colar. Não que colar seja certo, mas está comprovado que nossas inteligências não são as mesmas que as do nosso vizinho de carteira. Então porque ele não poderia nos ajudar em algumas coisas e nós o ajudar em outras? Coisa de quem achava que se poderia vencer na vida sozinho. Bom, Machado de Assis acabou me ensinando a frase que mais valorizo quando o assunto é troca de idéias: quem troca pães fica com um pão, quem troca idéias fica com duas. Quer mais? Então vamos...
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Caso 1: Johnson & Johnson - Ano, 1980. Cena: eu, que era engenheiro da Johnson & Johnson, acabei de ser promovido a gerente de produção da fábrica de escovas e fio dental. Um problema, uma das injetoras de estojos de fio dental estava com uma perda de 25%, o que é absurdo em qualquer comparação.

Depois de falar com todos os espertos no assunto, a solução proposta era comprar um molde novo por um milhão de dólares. Fuçando, falando com o operador da máquina descobri que uma caixa de papelão que recolhia os estojos com problema soltava fibras que "sujavam" o plástico e causavam o defeito. O custo da resolução do problema foi um balde de plástico para substituir a caixa de papelão.
Mais ou menos três reais hoje. No dia seguinte a perda tinha baixado para os níveis normais de injeção das outras máquinas. Perguntei ao operador porque ele não tinha falado antes e ele me disse que tentou umas vinte vezes, mas o gerente anterior era muito ocupado. Nunca parava para ouvi-lo. Julguem vocês o que ele era. Se a Johnson & Johnson ouvisse mais o pessoal dela talvez tivesse continuado tão forte como era.

Caso 2: Pizza Hut Rio - Sete anos atrás, entrei na primeira loja da Pizza Hut Rio. Tinha acabado de ser demitido da J. Macêdo e assumi o Moinho da Luz e a Pizza Hut juntos. Fuçar... Fui à segunda loja ver o quadro de registro de uso de material que controlava as perdas. No canto superior esquerdo um bonequinho parecido com uma pizza desenhado. Gostei, perguntei, quem fez? De medo todo mundo fugiu aí afirmei, gostei, quem fez? Apareceu a autora que era gerente da loja. O personagem virou o Panpito (nome que surgiu em concurso com os funcionários) que deu origem a um programa de relacionamento que se iniciou com um natal para crianças carentes e depois mandou cartões para crianças que passaram a freqüentar a Pizza Hut para conviver com o Panpito. Tudo idéia de pessoas que trabalhavam na Pizza Hut. Desde a Cláudia, gerente da loja até a Ciça Carvalho, gerente de marketing que era a madrinha do projeto. Eu, o padrinho. E todo mundo podia dar o palpite que quisesse. Resultado, cinqüenta mil sócios do Panpiclube sendo que setenta por cento nunca tinham pisado na Pizza Hut. Se a Pizza Hut e outros franqueadores por aí ouvissem mais os seus franqueados, talvez tivessem mais sucesso.

Caso 3: Nacional Seguros - Uma só idéia - pagar o seguro de automóvel quando houvesse perda total em 7 dias. Idéia do presidente da Nacional Seguros da época, o Roberto Freire. Ou devolver o dinheiro que a pessoa tinha pago mais o carro caso falhássemos, caso não conseguíssemos cumprir o prazo. Essa idéia copiada diretamente de uma estratégia dos áureos tempos da Mesbla - caso você encontre um brinquedo em algum anúncio mais barato que na Mesbla, é de graça. Já agradeci pessoalmente o Luiz Antônio Secco pela idéia genial como muitas que ele tem. Mudamos o mercado de seguros. Triplicamos venda, lucro e saímos de 11º. no ranking para 5º. E a Unibanco Seguros ainda se beneficia das coisas que fizemos naquela época. Claro, com a ajuda do pessoal de operações liderado pelo Francisco Dionísio que arrebentou mudando os processos e conseguindo cumprir a promessa que fizemos.

Conselho? Desça a escada, apareça na loja. E fuce. As idéias vão aparecer. Implemente uma de cada vez. Se der certo continue. Se não, tente outra. Só não dá para não fazer nada.
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Edmour SaianiSite: www.pontodereferencia.com.br

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