"O Ato de Inovar Simplesmente Por Inovar Está Com os Dias Contados"

Para o brasileiro Lourenço Bustani, uma das pessoas mais inovadoras do mundo segundo a Fast Company, a inocação não está mais relacionada ao lucro que a empresa gera a seus acionistas, ams ao que ela agrega à sociedade

Por Fabiana Pires

Em junho de 2012, a revista Fast Company divulgou o seu ranking das 100 pessoas mais inovadoras do mundo dos negócios. Na lista, onde figuravam executivos de grandes empresas, como Starbucks, American Express e Nike, apareceu também o nome do brasileiro Lourenço Bustani, de 33 anos, fundador da consultoria Mandalah. O fato foi curioso porque, até então, o empresário não era conhecido no Brasil.

Filho de diplomatas brasileiros, Bustani nasceu em Nova York, nos Estados Unidos. Por lá, cursou Relações Internacionais e Ciências Políticas na Universidade da Pensilvânia. Depois, morou em cinco países e trabalhou na área financeira antes de vir de vez para o Brasil, onde fundou a Mandalah, em 2006.

A consultoria, criada ao lado do publicitário Igor Botelho, se define como uma butique de inovação consciente. Só que aqui a definição de “inovação” é um pouco diferente. Para a Mandalah e para Bustani, o nível de mudanças que uma organização pode gerar está completamente atrelado ao papel social que ela cumpre. "O ato de inovar simplesmente por inovar está com os dias contados". Para explicar sua teoria, ele usa o exemplo dos aguardados lançamentos anuais da Apple. É claro que o iPhone mudou a vida das pessoas, facilitando tarefas do dia a dia. "Só que essa estrutura de promover pequenas mudanças todos os anos para desbancar o concorrente e agradar os acionistas não é sustentável", diz Bustani. Sua visão atraiu clientes como Nike, Ambev, Natura, AIG e General Motors para a consultoria.

Num futuro próximo, o empresário prevê que as companhias compartilharão de sua opinião. "Elas precisarão olhar mais para as melhorias que levam à sociedade para se dizerem prósperas". E, nesse ponto, ele é categórico: "o lucro é algo indissociado da ação social".

Como você vê a inovação nas empresas hoje no Brasil?

É difícil generalizar. Cada empresa está na sua jornada, no seu processo de inovação. Estão todos procurando inovar, cada um por seus motivos. Mas a gente percebe que, enquanto alguns estão dando passos bastante ousados em direção a caminhos mais prósperos, outros ainda procuram o que exatamente significa a inovação dentro do negócio que administram. No entanto, se fizermos uma retrospectiva dos últimos 10 anos, de uma forma geral, é possível dizer que o mercado brasileiro está se desenvolvendo, sofisticando e inovando.

O que seriam esses “passos ousados”?

Por muito tempo, as empresas enxergaram a prosperidade de acordo com o valor que geraram para seus acionistas. E esse valor foi gerado em detrimento de alguém ou de algo. Era uma situação na qual, enquanto alguns ganhavam, outros perdiam. Hoje, temos mais conhecimento sobre a repercussão das atividades das empresas. Vemos que não é mais sustentável que a empresa prospere enquanto seu entorno se sacrifica. Com essa nova consciência as empresas passam a se perguntar: até que ponto aquilo que eu faço está a serviço da sociedade? Está melhorando a vida das pessoas? É uma virada de chave, uma reconfiguração do modelo de negócio e uma mudança mental. Uma mudança na forma como o valor é percebido para aquele negócio. É um movimento que está ocorrendo no mundo inteiro.

O que você define como inovação?

Na Mandalah, qualificamos como tudo aquilo que melhora a vida das pessoas. Qualquer coisa que torne um cidadão mais apto a desempenhar seu papel na sociedade. Não estou falando de coisas radicais, mas de coisas que deixem as pessoas mais preparadas para enfrentar os desafios do dia a dia. Até que ponto uma empresa contribui para a vida de uma pessoa? Por que a inovação tem de ser sempre o novo pelo novo? É o caso do novo iPhone. A inovação apenas pela inovação. Em alguns casos essa evolução é necessária, mas a discussão em torno disso pode se aprofundar.

Eu acredito que a empresa do futuro vai se dar bem a partir do bem que ela promove. É uma opinião minha, aceito que as pessoas discordem. No entanto, eu acho que as empresas que vão se desenvolver e sobreviver pelas próximas décadas são aquelas que vão conseguir equacionar essa relação e transformá-la em um círculo virtuoso de relações bem intencionadas. Eu acho que acabou essa era na qual você poderia fazer coisas não tão legais para o mundo e tentar compensar isso fazendo meia dúzia de atividades legais, amorosas. As pessoas não vão mais aceitar. A empresa está a serviço da vida das pessoas e não apenas de seus acionistas.

Por que você acha que isso virou uma preocupação para as empresas?

Aconteceu um movimento muito curioso entre 2008 e 2009 com a crise financeira mundial. Mais do que uma crise econômica, vimos as empresas viverem uma crise existencial. Grandes organizações deram uma pausa em tudo o que estavam fazendo e se perguntaram qual era a sustentabilidade daquilo. Houve uma reflexão importantíssima nesse momento e foi exatamente quando a Mandalah começou a crescer. Essa discussão está ganhando repercussão.

E essa discussão tem ocorrido no Brasil?

É claro que eu adoraria que essa repercussão estivesse ocorrendo de forma mais acelerada no Brasil. Mas estamos caminhando, estamos progredindo. O Brasil é um país complicado. Faz pouco tempo que estamos nos modernizando. Éramos um mercado muito informal, com muitas empresas familiares e estatais. É preciso ter um pouco de paciência, tudo tem o seu ritmo.

Como administrar uma empresa focando na inovação?

Na Mandalah, a primeira coisa que fazemos com um cliente é dar um “zoom-out” no próprio negócio. Tentar fazer com que a empresa se enxergue no todo, veja todas as conexões que tem. As organizações tendem a achar que existem num vácuo e não conseguem se dar conta do quanto atingem. Nós mostramos: olha, todos esses agentes são impactados pelo seu negócio. Esse mapeamento sistêmico sensibiliza muito nossos clientes. Eles percebem o quanto tudo está interconectado.

Quando delineamos quem são esses agentes que são impactados pelo negócio de nosso cliente, criamos um canal de diálogo com eles para entender o que é considerado importante daquele lado, quais são as necessidades e como articular uma agenda que possa suprir essas necessidades. Começamos a gerar um valor para ser compartilhado e distribuído, criamos um ecossistema dentro da organização. É um movimento bem lógico. Quando adotado, é possível entender como criar um outro significado para empresa – entre o lucro e o propósito.

E como criar uma empresa com foco na inovação?

É muito mais fácil criar uma empresa focada na inovação do que transformar uma que já existe. Na Mandalah, nós atendemos muitas startups. Começamos tentando fazer os empreendedores entenderem o que deu origem ao negócio, qual o seu propósito, o que fez o empreendedor acordar certa manhã com aquela ideia. Essa é a primeira coisa que precisa ser articulada. A partir disso, você cria a engenharia do seu propósito para que ele se torne realidade.

O nível de inovação hoje em uma empresa grande é o mesmo que em uma startup? Quais são as diferenças entre mudar a estrutura de uma pequena empresa e de uma empresa grande?

Isso depende muito de quem está por trás das empresas. Já vimos empresas grandes conseguirem girar essa chave da inovação muito mais rápido do que empresas pequenas, simplesmente porque as pessoas estavam motivadas a fazer essa mudança. Por outro lado, é muito mais fácil instituir esse tipo de pensamento focado na sustentabilidade do negócio, no seu propósito em uma startup do que em uma grande companhia.

Aqui, não faz diferença, por exemplo, o capital que uma organização tem para investir em inovação. Essa mudança de pensamento é de graça, não custa nada, é uma mudança da percepção de visão de mundo, de consciência do seu negócio.

O que você acha que te levou à lista de pessoas mais inovadoras do mundo da revista Fast Company?

Eu não dou muita importância para isso. Fiquei honrado, claro, mas não perco muito tempo especulando o porquê dessa indicação. Eu acho que esse reconhecimento ajuda a fortalecer o senso de propósito da Mandalah. Nós nascemos com as melhores intenções, colocamos em prática todos os ideais que apresentamos aos nossos clientes. É uma empresa que está prosperando e gerando lucro. Depois de sete anos, estamos comprovando que o modelo de negócio que recomendamos é plausível e que essa visão de mundo é prospera.

Com o Brasil prestes a sediar eventos de repercussão mundial, essa seria uma boa oportunidade para os negócios nacionais investirem em mudanças? “Girar a chave”, como você diz?

Acho que devemos aproveitar o embalo da visibilidade gerada por esses dois eventos, mas não podemos esquecer que essa discussão não ocorre em um vácuo. Enquanto não conseguirmos resolver e melhorar algumas deficiências estruturais, as perspectivas para que o Brasil seja considerado um país inovador são muito limitadas. Como você pode ser um país inovador se as pessoas não estão educadas, não estão saudáveis, onde não se tem credibilidade no governo? Se ignorarmos essas questões por causa desses eventos, todo o crescimento projetado não irá acontecer, simplesmente porque não solucionamos os problemas estruturais que precisávamos.


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