Às Vezes, o Herói é o Vilão

Alguns chefes arruinam o trabalho só para posar de salvadores da pátria

Por Álvaro Oppermann

Nos anos 80, um estudo de psicologia criminal do FBI identificou o caso singular do “piromaníaco herói”: o sujeito de baixa autoestima que provocava incêndios para se destacar no salvamento das vítimas. Era em geral o primeiro a ligar aos bombeiros e dar declarações na TV. O consultor Les McKeown, autor do livro The Synergist: How to Lead Your Team to Predictable Success (“O sinergista: como liderar sua equipe para o sucesso previsível”), identificou um tipo correspondente nas chefias. Os “incêndios” deste são metafóricos, claro, mas de resultado negativo real: é o chefe que “queima” a própria equipe.

Subconscientemente, ele cria armadilhas para a equipe. Sabota o processo para que, ao “consertar a situação”, se sobressaia. “Ele não é o micromanager; aliás, seu estilo é o oposto do gestor detalhista e chato”, diz McKeown. O microgestor tem medo atávico de que os outros façam as coisas malfeitas. Já o “herói sabotador” aposta nisso. Julga todo mundo incompetente e acha que só ele tem a “receita secreta”. Seu comportamento muitas vezes parece altruísta, mas não é. Por exemplo, pode varar a madrugada rearranjando o layout do escritório, em vez de delegar a tarefa. Entre seus mantras estão frases como: “Se não for por mim, o barco afunda”.

“A tática principal desta chefia é a comunicação ambígua”, diz McKeown. Na aparência, as instruções dadas pelo chefe-herói são lógicas, expostas de forma fluente – o “herói”, em geral, é um tipo charmoso, cativante. Porém, quando analisadas de perto, vê-se que as informações são incompletas, ambíguas ou contraditórias. “Ele manda a equipe fazer A, B e C. Quando a coisa dá errado, diz que deveriam ter feito D, E e F.”

O seu processo de contratação também é falho. O “herói” contrata errado e tem aversão aos profissionais de alto desempenho e talento genuíno. De destaque, basta ele. Segundo McKeown, tal chefia tem um faro especial – e maligno – para identificar calcanhares de Aquiles entre os contratados, profissionais que no papel parecem muito bons, mas cujas falhas ocultas acabam propiciando, posteriormente, os seus momentos de glória, quando tem de salvar o dia.

“A dura verdade é que, se você quer brilhar mas trabalha sob as ordens de um chefe sabotador, o melhor é sair da sua equipe”, diz McKeown. Pois uma coisa é certa: se a chefia tem de consertar tudo, sempre, o que precisa de conserto é ela própria. 


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