Demitido Deve Superar ‘LUTO’ Rapidamente


Por Claudio Marques

Depois de passar por três demissões em grandes companhias como Bunge, Brother International e Brookfield, onde atuou como diretor-financeiro, Ricardo Leite, de 51 anos, conseguiu reverter a situação e conquistou o seu primeiro cargo como diretor-geral em uma empresa da área de meio ambiente há um ano e meio. Os desligamentos, que ocorreram ao longo de quase 14 anos de carreira, segundo ele, não o pegaram de surpresa.

“Há sinais claros de quando a empresa está querendo demitir um executivo. Fazem reuniões e não nos chamam, por exemplo. Quando há algum tipo de fusão ou aquisição, é certo que a outra empresa trará a sua equipe. E quando o negócio não está indo muito bem, o primeiro campo a ser mexido é o alto escalão. Foi o que aconteceu comigo”, diz.

O consultor em gestão de pessoas, Eduardo Ferraz, confirma a percepção de Leite. “Trabalho há 20 anos nesta área. Acho estranha a reação das pessoas quando são demitidas, porque os sinais são evidentes. Se o seu desempenho deixa a desejar, é claro que há risco de demissão; se a empresa não vai bem, todos correm risco, porque ela pode querer mudar o comando e trazer algum resultado, ou pode demitir para conter gastos, por exemplo.”

Para ele, mesmo que o profissional não tenha observado os sinais e seja desligado da empresa, ele não pode “se dar ao luxo da reclusão”. “É natural querer ficar um pouco sozinho refletindo sobre a vida e a carreira, mas não recomendo ultrapassar 15 dias de descanso”, diz. Passado o período, Ferraz aconselha o profissional a acionar o quanto antes a sua rede de relacionamentos e mostrar que está disponível no mercado. “É o principal e o mais eficiente canal de recolocação profissional”, garante.

Opinião semelhante tem a consultora de transição de carreira da Right Management, Marcia Oliveira. “É um momento de reflexão sobre o que o profissional quer da carreira e sobre o que fez até aquele momento para ser reconhecido pelo mercado. Mas este questionamento não pode durar muito tempo. Passada a fase ruim, é hora de atualizar o currículo, ver as empresas que interessam e correr atrás delas.”

O vice-presidente de operações para o Brasil e América Latina da LHH/DBM, José Augusto Figueiredo, acredita que uma parada curta é necessária para o profissional se “desintoxicar da outra empresa”, ganhar fôlego para ir atrás de oportunidades e começar bem em outro local.

“A parada é importante para se descobrir onde a sua atuação faz a diferença e o que sua bagagem profissional tem de melhor na comparação com outros candidatos”, comenta Figueiredo.
Para a vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine Saad, é natural as pessoas se assustarem com a demissão em um primeiro momento. “Mas é preciso manter a calma e lembrar que é um procedimento natural. Também é bom tentar obter um retorno da empresa que o está desligando sobre os motivos que resultaram na demissão. Assim, fica mais fácil corrigir eventuais erros”, afirma.

Cautela

Tanto Marcia quanto Ferraz aconselham o profissional a não disparar currículos para todos os cantos em uma busca desesperada por uma vaga. “É pior ficar recusando propostas que não lhe agradam do que selecionar bem as empresas de seu interesse e fazer um currículo mais elaborado ressaltando as qualidades que vão deixar essas companhias interessadas no seu trabalho”, diz Marcia.

Se o profissional está com dificuldade para conseguir um emprego, vale investir em um trabalho voluntário na sua área de atuação. “Não é raro encontrar pessoas que criaram uma rede de relacionamento durante este tipo de ação e acabaram conquistando a recolocação em uma empresa maior”, conta Ferraz.

Se, no entanto, as economias obtidas na rescisão estão se esgotando, e a dificuldade para arrumar um emprego é grande, Ferraz aconselha a buscar alternativas temporárias, mesmo que em outra área, para incrementar a renda durante o período. “Mas o profissional jamais pode perder o foco do que deseja na carreira.”

No caso de Ricardo Leite, nas três ocasiões em que ele foi demitido, as empresas lhe ofereceram outplacement – consultoria que auxilia o profissional na transição da carreira – e ele conseguiu recolocação.

“As orientações que recebi me ajudaram muito. Percebi que a minha vocação é, de fato, para o mundo corporativo e que não tenho um perfil empreendedor aguçado para montar um negócio”, conta. 

Ouplacement auxilia quem perdeu o emprego

No fim do ano passado, o espírito empreendedor da engenheira elétrica Gislaine Gallette, de 42 anos, a levou a propor um acordo de demissão ao banco onde trabalhava desde 2000 para montar seu negócio, a Gallette Chocolate Gourmet. A ideia era sair amigavelmente, com todos os benefícios, incluindo um programa de outplacement, que auxilia o profissional na transição da carreira. O negócio deu certo.

“Achei que era o momento de mudar minha vida em 360º. Por sorte, a empresa aceitou a minha proposta e eu consegui finalmente realizar o sonho de me dedicar ao meu negócio e ao chocolate, minha grande paixão”, diz.

Gislaine recebeu a consultoria durante sete ou oito meses. “Foi importante, porque eles me auxiliaram a consolidar o modelo de negócio que eu pretendia seguir. Fizeram eu me enxergar como empresária e o que tinha de fazer para colocar tudo o que sonhava em prática”, comenta.

Assim como Gislaine, muitos executivos acabam utilizando programas de outplacement para nortear a sua carreira após sair do emprego.

Segundo o vice-presidente de operações para o Brasil e América Latina da LHH/DBM, José Augusto Figueiredo, as empresas que oferecem este tipo de programa estão crescendo. Estima-se que atualmente 20% das companhias brasileiras dão este tipo de consultoria. “Se pensarmos no eixo Rio-São Paulo, o porcentual sobe para 35%”, diz.

A afirmação de Figueiredo é compartilhada pela vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine Saad. “O Brasil já é um mercado maduro no que se refere ao outplacement. O programa foi muito utilizado durante a crise financeira de 2008, quando as companhias demitiram bastante. E hoje é usado dentro da normalidade do mercado.”

Segundo a consultora de transição de carreira da Right Management, Marcia Oliveira, 71% dos seus clientes que passaram pelo outplacement em 2011, conseguiram recolocação profissional em até três meses.


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