Série SE NEGÓCIO - Empreender Com o Dinheiro Dos Outros: é Refresco

Antes de abrir mão de um plano pessoal para investir no negócio de um amigo ou familiar, é importante analisar com cuidado os riscos. Para o empreendedor, seu investimento pode ser apenas uma forma de pular etapas 

Por Fábio Zugman

Oi pessoal, essa semana vamos responder à duvida da leitora Clara Rodrigues. O e-mail dela me chamou a atenção porque, diferente de muitas pessoas que me escrevem, ela está feliz com sua carreira, acha que está em um bom caminho e até consegue economizar um dinheiro todo o mês.

A dúvida dela surgiu quando uma amiga próxima, mordida pelo bichinho do empreendedorismo, propôs que ela entrasse de sócia em uma loja de sapatos a ser aberta em um shopping da região. A Clara nos conta que apesar de gostar muito da amiga, não quer entrar em uma furada, e pergunta como lidar com a situação, e não perder a amizade.

Clara, já existe um bom mecanismo para avaliar a qualidade de um negócio e o nome é mercado financeiro.

No Brasil, ainda temos uma cultura bastante familiar quanto a esse tipo de coisa. É normal vermos pais emprestando (ou dando) dinheiro a filho, filhos mais velhos abrindo a carteira para os pais, parentes com uma ajudinha aqui, outra ali, e até amigos, como no seu caso.

Sob uma perspectiva econômica, isso não é bom. As instituições financeiras teoricamente são especialistas em avaliar riscos, determinar taxas de retorno adequadas, e decidir os limites de cada um quanto ao crédito que poderiam ter.

A pessoa física dificilmente faz esses cálculos. A Clara não falou de valores, mas se ela tiver disponível R$10.000 reais em sua conta, a um juros baixo de 0,5% ao mês, ela teria R$ 18.100 ao final de dez anos. O mesmo vale para um pai que entrega dinheiro ao filho. Querendo livrar o filho do incomodo de lidar com juros de banco e contratos de financiamento, um pai que abre a carteira e entrega dez mil reais está abrindo mão de R$ 18.100 em dez anos, ou digamos R$32.900 até a aposentadoria em vinte anos, quando esse valor significa cento e sessenta reais a mais de aposentadoria todos os meses. Ao facilitar a vida de um parente, essa pessoa está dificultando um pouco o próprio futuro.

Quando colocamos tais decisões sob essa perspectiva, assim como faríamos com um investimento, as coisas se tornam mais objetivas. Do ponto de vista educacional podem até fazer bem: de que adianta proteger pessoas queridas de si mesmas, se um dia, mais cedo ou mais tarde, essas pessoas serão obrigadas a lidar com o mundo por conta própria? Há uma diversidade de casos que mostram famílias inteiras sendo afundadas, amizades indo para o buraco, por que a ajuda se tornou pesada demais. Não estou dizendo que pais nunca devem ajudar os filhos e vice-versa, mas em muitos casos essa ajuda torna-se um problema.

Culturalmente, muitos veem como "cruel" a ideia de mandar uma pessoa querida lidar com o tal mercado quando estiver precisando de dinheiro, mas tal situação faz parte da vida. Cruel, por mais dinheiro que você tenha, é proteger uma pessoa de assumir responsabilidade por suas próprias ações. Tal tipo de "ajuda" evita que ela aprenda suas lições e cresça como todos temos que fazer um dia. A maioria dos empreendedores tem que fazer planos de negócio, pesquisas de mercado, calcular perspectivas de retorno e viver dentro da realidade. Se seu amigo ou parente está fazendo isso, ótimo. Mas se ele estiver fazendo isso como um atalho para não se dar a esse trabalho, você quer sócio de alguém assim?

O primeiro ponto então, Clara, é você definir exatamente o motivo pelo qual está entrando na sociedade. Você está entrando para proteger sua amiga ou porque a proposta é realmente boa? Se você está abrindo mão de um sonho como a compra de um apartamento ou sua aposentadoria, por que você está fazendo isso? Você quer ser dona de um negócio? Ele atende os requisitos de risco e retorno que você acha razoável? E, muito importante: Sua amiga lhe passa a confiança de ser alguém com maturidade e habilidade para lidar com o dia a dia do negócio e oferecer um lucro pelo seu investimento? Respondendo a essas questões, você estará no caminho certo.

Por último, eu levaria essa pessoa a procurar financiamentos de outras fontes. O raciocínio aqui é simples: se um banco acha que o risco não compensa, há algum motivo para você achar que ele compensa para você?

Quanto à amizade, é preciso separar o emocional do objetivo. Lendo seu e-mail, tive a impressão de que sua preocupação em termos financeiros é grande, mas emocionalmente você está preocupada em guardar o dinheiro e abrir mão de um amizade. A pergunta, então, não é se você perderá uma amiga por não dar dinheiro a ela. Afinal, você realmente quer amigos que colocam esse tipo de condição para a amizade continuar?

Se o negócio for bom e você estiver feliz com isso, o investimento torna-se fácil. Se sua amiga é confiável, fez a lição de casa e sua amizade para ela vale mais do que dinheiro. Ela vai saber respeitar suas escolhas, sejam elas quais forem.


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