Coluna do Marco - Entre Pipas e Bolinhas de Gude



Entre Pipas e Bolinhas de Gude


Toda criança tem seus brinquedos e brincadeiras preferidas, as pipas e as bolinhas de gude sempre foram as minhas, gostava também de rodar pião e jogar bola, mas talvez por não ser tão bom nestes dois últimos, tomei como preferidos os dois primeiros. 

O grande problema foi este dilema que se estabeleceu na minha infância, isso me perseguiu e certamente perseguirá em meus dias enquanto houver vida em mim é justamente este, as opções... 

Uma pipa? Ou bolinhas de gude? 

Nunca consegui brincar com os dois ao mesmo tempo. Se jogasse bolinha de gude teria que abrir mão de empinar pipa e claro que por uma questão óbvia não dava para empinar pipa jogando bolinhas de gude. Se pela física, dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço no mesmo tempo, havendo controvérsias com relação a alguns encontros amorosos, o mesmo corpo, no caso o meu na infância, também não pode ocupar dois espaços diferentes ao mesmo tempo. 

Nas brincadeiras havia este momento de confusão, olhar para cima e ver a beleza de uma pipa colorida flutuando fazendo acrobacias que me encantavam e me fazia correr e voar junto ou ficar hipnotizado com o brilho do vidro e das múltiplas cores das bolinhas de gude e os giros piruetas e efeitos que estas proporcionavam à minha retina no impulso do meu polegar. 

Eu poderia, se tivesse as noções de administração do tempo que tenho hoje, estabelecer uma hora para brincar de uma coisa e depois brincar de outra e assim obter prazer nas duas em tempos diferentes, mas a sensação de que poderia estar me divertindo brincando da outra coisa iria permanecer. 

Me disseram muitas vezes que escolher é perder algo. 

Já ouvi filósofos, psicólogos e outros tantos especialistas no comportamento humano afirmando categoricamente que não é nada disto, uma escolha é um ganho, uma superação das dúvidas, uma tomada de decisão onde se abandona a vacilação e se segue em frente assumindo a postura responsável e madura dos atos, deixando para trás algo que não seria realmente importante. Assim sendo, o processo de escolha deve ser balizado por análises feitas levando em conta cenários, personagens, objetos e objetivos envolvidos, vantagens na linha do tempo e outros tantos dados e informações que permitam tomar uma decisão em que não há possibilidade de arrependimentos, pois todos os vetores foram identificados, abordados e devidamente examinados para uma tomada correta de decisão como num plano cartesiano, se X então Y e se eu quero Y, logo faço X... 

Ufa, este raciocínio todo deu para cansar o meu quengo... 

Uma escolha parece que deve ser balizada por uma atitude racional. É claro para mim que a racionalidade é uma forma de proteção, se eu for racional em minhas atitudes, não devo correr riscos e tampouco sair da minha área de conforto. 

Espera-se dos homens, e aqui “homens” é no sentido universal nada tendo a ver com o gênero, que este seja racional e que tome as atitudes que se espera dele(a), que não se arrisque, e se for se arriscar que este risco seja “calculado” e que não ponha em perigo sua estabilidade financeira, profissional, afetiva, e outras tantas que são tão caras, que sempre buscamos e podemos denominar equilíbrio. Assim, uma decisão deve ser racional e equilibrada para não desequilibrar ou desestabilizar a vida. 

Um filme bastante polêmico na época, nos final dos anos 80, foi A ultima tentação de Cristo do diretor Martin Scorsese, o enredo mostrava entre outras coisas que Cristo teria a opção de ao invés de morrer na cruz e entrado para a posteridade como redentor dos pecados seus e alheios, seria tirado na última hora da cruz e poderia viver um amor com Maria Madalena e não seria necessário tamanho sacrifício pelos homens, ou seja, ele poderia ter uma vida prosaica, como uma pessoa comum, com mulher, filhos, envelhecer e morrer em paz no leito. 

Foi a guerra do fim do mundo, tinha grupos que ameaçavam colocar bombas em cinemas que ousassem exibir a fita, o filme foi proibido em muitos países e foi um perereco danado. 

Polêmicas à parte, o que me chama a atenção é isto, a escolha pela lógica por uma questão de autopreservação, e é o que a escolha lógica propõe, Cristo teria feito no filme a escolha lógica e correta, não morrendo na cruz e vivendo o resto dos seus dias com o dever cumprido sem ter que sofrer mais nada, não precisava morrer, havia feito uma escolha que qualquer pessoa teria feito sem que ninguém pudesse censurar ou condenar tal ato. 

Pouco antes do seu suposto final feliz, Jesus percebe que a opção da escolha lógica era um engodo do diabo. O capeta na última hora, havia aparecido para ele, se passando por um anjo enviado por Deus e oferecido um outro final, um final tranqüilo, uma vida sem mais sobressaltos ou sofrimentos. 

Desta forma a escolha lógica, pela preservação de todo o equilíbrio na vida de Jesus era na verdade um truque do mal. Percebendo isto antes de morrer, Jesus invocou o direito de filho de Deus e voltou no tempo para terminar seu destino, morrendo na cruz, fazendo assim uma escolha movida pela paixão e não pela razão. 

Paixão pelos homens, paixão pela vida, paixão pelo mistério do desconhecido, desconhecido sim, pois como seria uma vida comum Jesus já havia vivido. Desta forma pensando, concluo que a escolha pela lógica nem sempre é um presente divino e pode ser uma armadilha do diabo. 

Bem e mal colocados de lado, estou sinceramente propenso a pensar que as opções feitas pela paixão podem não ser as mais seguras, mas certamente são as mais divertidas. Preços a serem pagos qualquer escolha tem, porém as escolhas lógicas parecem poder ser tabeladas. O preço a ser pago pelas escolhas apaixonadas são verdadeiramente incógnitas, no entanto a alegria ou tristeza que podem aguardar ali, na virada da próxima esquina, certamente dá aquela sensação de estar vivo. 

A paixão sempre moveu a humanidade, a paixão pelo mar fez com que os homens se lançassem no desconhecido, a paixão por voar, a paixão por conhecimento, a paixão pelo outro, a paixão por tudo sempre moveu e mudou tudo. 

A escolha lógica me preserva e dá segurança, a escolha apaixonada me liberta e me torna vivo. 

Viver tranquilamente uma vida e uma velhice sem sobressaltos? 

Jogar bolinha de gude e ter as bolinhas ao alcance da mão? 

Viver os mistérios da vida e o desconhecido que se apresenta? 

Correr atrás das pipas e descobrir novos caminhos? 

Minha vida ainda é construída por escolhas e as certas eu nunca saberei. Penso ser esta a magia de viver. 


Marco Antonio Cordeiro 
Administrador e escrevinhador 


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