Coluna do Marco - Entre a Cruz e a Caixa Registradora



Entre a Cruz e a Caixa Registradora

“Criança que mente não vai para o céu”. Muitas vezes ouvindo um adulto me dizer isso. Fui obrigado a dizer a verdade mesmo tendo a total consciência que isso iria me custar alguns sopapos. Mas o que seriam uns pés de ouvido comparado a ir brincar no playground da casa do capeta?

Assim passei uma pequena parte da vida acreditando que a mentira não seria a coisa correta de se dizer e que o certinho na vida seria dizer sempre a verdade. Não demorou muito para perceber que a mentira dava uma tranquilidade para se sobreviver em contato com outras pessoas, claro, sem perder de vista que existiam pequenas mentiras e grandes mentiras, pequenos furtos de doces na venda da esquina e desvios milionários nos cofres públicos.

Porém, na moral judaica cristã e mesmo no direito, pecado é pecado e crime é crime, mesmo que no direito exista a figura do furto famélico em que o individuo em extrema penúria e roubando para se alimentar possui certas prerrogativas atenuantes em seu julgamento.

Assim, pequenas mentirinhas são toleráveis do tipo:

- Este vestido ficou ótimo em você.

Dito quando algumas pessoas “amigas” se encontram no shopping e provam que se Deus é justo e a vida é curta, aquele modelito comprado dois números abaixo do próprio manequim pode ser muito mais.

- Tá bonito, tem boa linha.

Opinião emitida na hora em que um amigo vê e avalia, a pedidos, o carro comprado pelo outro quando na verdade o veículo está um bagaço caindo aos pedaços.

- Estão ótimas, muito bem batidas.

Sobre as fotos postadas no álbum de Orkut ou Facebook daquela amiga visível e exageradamente acima do peso, de biquíni com o namorado que é um filhote de coruja que só a mãe e o amor, o faz bonito (Oxalá o photoshop também faça milagres).

Estas são pequenas mentiras inofensivas que permitem que as pessoas não se incompatibilizem com quem gosta e mantém as relações humanas intactas e saudáveis.

Existem outras mentiras ditas por questão de sobrevivência:

- Eu não sei, não vi e não conheço.

Que pode diferenciar a vida ou a morte em um morro do Rio ou numa comunidade, conhecida como favela, em qualquer outro local do Brasil.

- Não senhor seu policial, eu só consumo.

Certamente isso pode livrar alguém de uma temporada no xilindró.

- Minha cueca caiu em cima de um batom no banheiro.

Se colar, coisa que eu duvido, pode salvar o casamento.

Quando fui para o mercado de trabalho não teve jeito, tive que inventar algumas versões alternativas a realidade para sobreviver no mundo corporativo. Isso faz parte, não se pode fugir deste pecado.

Quando dava aulas na área de vendas e atendimento ao público, na maioria das vezes deixava claro aos alunos que não se deve mentir para o cliente, pois isso poderia reverter em muitos dissabores inclusive com o advento do código de defesa do consumidor, a empresa e o vendedor poderiam responder juridicamente por propaganda enganosa coisa que causaria prejuízo muito maior que qualquer lucro obtido com mentiras para fechar negócios.

Este para mim é um dos maiores dilemas que consome a alma dos profissionais da área de atendimento ao público e vendas. Conhecem bem o produto ou serviço que estão oferecendo, seus limites e suas vantagens e aquilo que dizem pode representar o ganho ou a perda do pedido, a obtenção do lucro ou não para que a empresa pague seu salário ou que a comissão venha para seu bolso. Também sabem que existe uma cota de dinheiro que o dono da empresa quer ter em troca da contratação do empregado e que esta cota em dinheiro tem que existir e ser a maior possível para justificar a presença do profissional na empresa. Permite-se veladamente uma omissão.

“Ops foi mal!” Me esqueci de mencionar este detalhe...

Haja pressão.

É a necessidade de ter dinheiro na carteira, a nova lingerie da mulher, a conta de luz, o colégio do filho, a cerveja com petisco do fim de semana, o aluguel, o presente de aniversário, a taxa de condomínio, a gasolina do carro, o dízimo da igreja, a internet banda larga, o aparelho dos dentes e mais uma carreta de coisas pressionando a ir ao encontro do pecado da mentira.

Tudo isso contra e para defender as verdades somente a ética.

Quando gerenciava uma empresa que trabalhava com turistas, havia um evento chamado “Pôr do Sol do Jacaré com Bolero de Ravel” que para quem não conhece, é a apresentação de um músico em uma canoa tocando saxofone no pôr do sol no Rio Sanhauá, este evento ainda acontece todos os dias nos finais de tarde. Pois bem, este show, na época, alternava para cada restaurante e um dia estava no nosso estabelecimento e no dia seguinte estava em outro.

Eu me negava propagandear que o evento ocorreria no restaurante que eu gerenciava para poder fazer com que os turistas ou mesmo os moradores locais entrassem no estabelecimento que eu trabalhava só para ter casa cheia. Em um dos dias o movimento estava fraco e o proprietário questionou porque estava tão vazio se tinha tanta gente nos outros locais e mesmo do lado de fora.

Informei que naquele dia não teria “Bolero de Ravel” na nossa casa e eu orientei a menina da portaria para dizer a verdade s quem perguntasse por uma questão de ética.

O dono do estabelecimento argumentou “Com tanta conta para pagar, meu restaurante está cheio de ética e os outros cheios de clientes, poderia ser o contrário”.

Uma semana depois o proprietário do restaurante ao lado foi agredido por dizer que o músico se apresentaria em seu restaurante e não era verdade. Não sei eu, se o cliente era turista ou morador local, resolve aplicar o código de defesa do consumidor dentro da sua interpretação e sapecou um soco no focinho do mentiroso.

Quanto vale ter ética, quanto vale um soco no nariz?

Eu estou por fora desta tabela, mas uma coisa me dá uma pequena vaidade, mesmo com a pressão do dono do estabelecimento não fiz nem autorizei por nenhum dia a informação daquilo que não fosse à verdade sobre o evento e por este motivo não levei soco algum. É fato que não tive aumento de salário e depois de algum tempo fui questionado por não fazer o que os outros faziam. Quase disse que tinha um enorme apego a integridade do meu grande aparelho olfativo, porém isso não foi necessário, saí um ano depois. Mas não sou hipócrita, não saí sem pecados corporativos.

Reconheço que mentir ou não mentir não são decisões fáceis, envolvem desde a garantia de ganho financeiro até a empregabilidade dentro da organização. Sei por experiência que muitas empresas falam de ética de suas portas de salas de reuniões para fora e a pressão sobre os profissionais responsáveis pelas vendas e atendimento é conduzido até as últimas situações para que estes “façam um esforço” para aumentarem suas vendas.

É um grande dilema existencial para quem pratica, porém extremamente fácil julgar errado atitudes não éticas relacionadas a informações sobre produtos e serviços.

Desta maneira, empurrados pelo volume de compromissos financeiros, temendo a instabilidade de suas contas e de não honrarem compromissos e expectativas de ganhar dinheiro, empresários e empregados não tem mais medo do inferno e pecam no atacado e no varejo.


Marco Antonio
Administrador e Cronista

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