Ser ou Não Ser um Mestre

Por: Tércio Saccol


Para boa parte das empresas, quem faz mestrado é porque quer ser um craque – mas na sala de aula e não nos negócios. Vai continuar sendo assim? A Capes decidiu que não

As velozes mudanças no mercado de trabalho e a competição crescente pelos bons empregos arremessaram multidões de jovens ao mercado de cursos de pós-graduação. A preferência deles recaiu sobre os chamados mestrados executivos - tecnicamente denominados de cursos lato sensu, mas irresistivelmente rotulados com a sigla MBA - Master in Business Administration. Já a turma que desejava um conhecimento mais profundo em um tema específico se encaminhava para o mestrado strito sensu, na perspectiva de usar seu título de mestre para lecionar em universidades. Essa divisão, que não é usual lá fora, mas se consolidou no Brasil, parecia ter tudo para funcionar. E até funciona - mas precisa de mudanças.

Em primeiro lugar, para frustração de profissionais e de empregadores, as especializações do gênero MBA proliferaram pelo país sem um controle de qualidade que pudesse separar o joio do trigo, como mostrou a reportagem "Quanto vale ter um MBA". Muitos dos mestres em Administração de Negócios que jorram dos cursos de MBAs descobrem, em algum momento, que faltou profundidade na especialização que buscaram. Esta é uma das causas de um fenômeno relativamente novo: o aumento da procura dos mestrados clássicos (strito sensu) por profissionais que querem níveis mais profundos de conhecimentos não para dar aulas - e sim para aplicar no seu dia a dia profissional.

É bem verdade que ainda não há muita oferta à disposição de executivos que, em vez de um MBA, preferem o mestrado clássico - aquele com carga teórica pesada e exigência de uma dissertação de fôlego no final. Em áreas como Comunicação e Ciências Naturais, é como procurar agulha em palheiro. Mas em Engenharia e em Administração, por exemplo, já há opções do chamado mestrado profissionalizante. E os números deixam muito claro que há demanda, e muita. No Brasil, o número de cursos de mestrado profissionalizante saltou de 132, em 2005, para 275 no ano passado.

José Elias Flores Junior, 34 anos, é um dos tantos alunos que passou por um banco de universidade para cursar o mestrado, e, ao final, voltou para o mercado. Administrador, ele já havia frequentado uma especialização em Marketing, há cerca de oito anos, mas mergulhou novamente nos estudos por considerar que havia uma lacuna em sua formação."Precisava de um curso mais reflexivo, panorâmico. Além disso, a especialização já não representa um diferencial na carreira, como aconteceu no passado e o mestrado me parece fazer a diferença", afirma José Elias. Embora permaneça no mesmo cargo - em uma empresa administradora de cemitérios e crematórios em Porto Alegre -, ele se sente mais valorizado profissionalmente com o curso de mestrado profissionalizante em Administração, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "É um ambiente que provoca mais a discussão em profundidade. Saio muito satisfeito", avalia.

O movimento de profissionais com foco no mercado, como José Elias, é percebido também dentro da academia. Para o coordenador de pós-graduação da UFRGS, Aldo Lucion, além da busca por qualificação, reconhecida nos cursos de mestrado, há uma espécie de descrédito em cursos de MBA. "Em função da disseminação desta modalidade, aumentou muito o número de diplomados. O mestrado diferencia o profissional e proporciona conhecimento mais profundo", defende. O problema é convencer o mercado de que alguém que faz um mestrado strito sensu, em vez de um MBA, tem foco em business."Percebemos que muitas pessoas estão procurando estes cursos, mas o mercado, em geral, ainda não tem a compreensão sobre os reflexos na capacitação do profissional, e ainda liga o mestrado a um futuro acadêmico, o que, em uma visão limitada, não é visto de forma positiva", detecta Rubem Souza, da empresa RSA Talentos Executivos, empresa de recrutamento. Em coro com outros headhunters, Souza assinala que os gestores de recursos humanos veem o mestrado como uma qualificação mais positiva para o profissional e menos para as organizações.

É natural. No Brasil, a universidade sempre apostou num desenho de cursos de mestrado para fins acadêmicos, isto é, voltado para a formação de professores e pesquisadores. E, de outra parte, a empresa brasileira não tem a tradição de empregar mestres e doutores, até pelo pouco investimento na montagem de áreas de pesquisa e desenvolvimento. "Falta densidade tecnológica às empresas brasileiras", constata Aristides Girardi, CEO da Starhunter Executive Search, empresa de recrutamento de executivos, com sede em Curitiba. Os próprios estudantes não contribuem para o mercado, afirma. "Muitos profissionais buscam apenas a melhoria do currículo com o mestrado. O profissional que busca esse tipo de qualificação deve ter visão sistêmica para explorar todas as potenciais oportunidades de trabalho e serviços", alerta Girardi.

Em alguns segmentos, no entanto, a titulação não só é estimulada como se tornou uma exigência para a conquista de boas posições no mercado de trabalho, caso de setores como o farmacêutico, o bioquímico e algumas engenharias. Espera-se que os mestrados profissionalizantes sigam em expansão. Nada que se compare, claro, ao boom dos MBAs, cuja carga horária e de estudos - mais leve - combina melhor com a agenda profissional dos alunos. Mas a Capes, órgão federal que disciplina os cursos strito sensu, aposta na procura por mestrados voltados para carreiras não acadêmicas. Tanto que, em dezembro, fez ajustes na regulamentação desses cursos. O diretor de avaliação do órgão, Livio Amaral, vê a ampliação das vagas como uma tendência. "Isso atende à necessidade da sociedade com relação à formação de recursos humanos", acredita.



Fonte: Redação de AMANHÃ

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