Empreendedores das Praias Cariocas

por Fabiana Ribeiro


À beira do mar, lá estão os empreendedores da areia do Rio. São barraqueiros, ambulantes, terapeutas corporais e professores de esportes que fazem da praia um negócio que movimenta R$ 50 milhões por mês no verão — quase o dobro das cifras do inverno, calcula o Sebrae-RJ. É gente que trabalha de olho no bolso dos cerca de dois milhões de banhistas que lotam as praias cariocas num típico dia de sol.


Do Leme ao Leblon, existem cerca de 400 barraqueiros. Entre eles, o veterano Pelé — há 26 anos no mesmo ponto da praia de Ipanema, em frente à Rua Garcia D’Ávila. Ao longo de duas décadas, deixou de ser mais um na areia: apostou em serviços e formação (graduou-se em educação física). Com isso, tem 11 mil clientes cadastrados. Cadastrados, sim. Pois a clientela tem carteirinha, que dá acesso, por R$ 10 por ano (o valor não muda desde 1996), a serviços como boy para pegar lanche fora da praia, frescobol, piscina para criança, bola e descontos em lojas. Detalhe: na barraca, nada de cerveja — bebida que é o carro-chefe de muitas outras.


— Não queria ser mais um e investi num conceito de clube. Essa é uma maneira de manter o cliente fiel — ensina um simpático Pelé, que hoje tem, além da barraca, seis quadras de vôlei, onde dá aulas e participa do treino do jogador Tande.


200 mil pessoas vivem da economia da praia no verão


Como empreendedor, gera empregos. São quatro vendedores, dois professores de educação física e três estagiários. Mas Pelé vai além da areia. Dá palestras em universidades e já participou de treinamentos do Sebrae. Parou por aí?


— Meu projeto deste ano é abrir uma loja fora da praia. Como se fosse a continuação do meu trabalho aqui na areia — conta Pelé, que deixou São João de Meriti para morar bem pertinho do trabalho, em Ipanema. Para quem não sabe, Pelé se chama Robenildo Alves.


Uma nova geração de empreendedores se formou a exemplo de Pelé. Um deles é Wesley Cesar, que, na barraca do Marquinhos, na altura da Rua Farme de Amoedo, vende seus Drinks Tropicais — um resultado de anos como bartender . Hoje, três anos depois de começar como ambulante, chega a fazer 200 drinks por dia, de caipirinha a bloody mary , que custam entre R$ 5 e R$ 16. Isso lhe garante, num mês de verão, um faturamento de R$ 5 mil. Além da praia, ele participa de eventos e festas.


— Comecei como ambulante, trazendo uma idéia de drinks saborosos e bonitos. Hoje, tenho até concorrência. Tudo bem, eu não tenho como atender a praia toda mesmo — vibra um empreendedor que sabe como cativar os clientes. — Dou de brinde poesias, que vêm numa garrafinha chamada Dose Poética.


Segundo Sergio Malta, diretor-superintendente do Sebrae-RJ, nem todos que vivem da praia — 200 mil pessoas no Rio num fim de semana — conseguem se destacar como Wesley e Pelé. Pensando nisso, a instituição vai desenvolver um projeto para capacitar cerca de 300 empreendedores, entre formais e informais.


— A economia da praia tem um potencial enorme. Mostraremos a importância de o empreendedor se associar, por exemplo. Assim, esperamos melhorar a renda dos envolvidos, no primeiro ano de atividade, em 20% — diz Malta, lembrando que a média de ganhos diários na praia é de R$ 30.


O economista Francisco Barone, coordenador do Small, Programa de Pequenos Negócios, Empreendedorismo e Microfinanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), lembra que a escassez de vagas no mercado de trabalho levou muita gente a apostar nesse tipo de empreendedorismo:


— Acredito que 99% dos vendedores da praia são empreendedores por necessidade de sobrevivência.


E lidam basicamente com os mesmos produtos. Quem se destaca é quem conseguiu encontrar um algo a mais, um espaço novo. Há aqueles que têm o gene do empreendedorismo; há os que não têm.


Paulo Roberto Santos Sodré, ou melhor, Baiano, entende o que quer dizer o especialista. Apenas com a quinta série do ensino fundamental no currículo, ele montou o Point do Baiano, em frente à Rua Prado Junior, em Copacabana. No verão, dá trabalho para 11 pessoas, com ganhos médios mensais de R$ 600 cada uma. Em sua barraca, ele criou um sistema de comanda, nos mesmos moldes de um restaurante. E, com apoio de uma cozinha industrial fora da areia, tem como servir batata frita, bolinho de bacalhau, frango à passarinho e lingüiça calabresa. Tudo pedido por sistema de rádio.


Para não perder o controle do negócio, Baiano acompanha de perto o trabalho de seus auxiliares e tem à sombra de sua barraca um mini-escritório, onde exibe, com orgulho, suas planilhas.


— Existem barraqueiros e comerciantes. Eu sou comerciante. Do tipo empresário da areia. Agora, vou colocar pulseiras em crianças, para que elas saibam em que barraca estão e, assim, não se percam dos pais — conta Baiano, que oferece chuveiro e piscina para as crianças.


Paulo Juarez Vargas, presidente da Associação do Comércio Legalizado de Praia (Ascolpra), ressalta que os empreendedores da areia enfrentam dificuldades que vão de dias de chuva a arrastões. Além disso, o trabalho exige esforço físico — no leva e traz de artigos para o ponto de venda — e preparo financeiro para arcar com a Tarifa de Uso de Área Pública (Tuap), tributo anual cobrado pela Prefeitura do Rio, que varia, em média, de R$ 40 a R$ 140.


— Trabalhar na praia requer empenho: não é só sentar na areia. Existe toda uma estrutura por trás.


Sem trabalho no mercado formal, oportunidade na areia


Cinco vezes por semana, a terapeuta corporal Eder Passiko Teodoro monta e desmonta sua tenda — com direito a maca e tudo — nas areias em frente ao Sol de Ipanema. Faz shiatsu e ainda cromoacupuntura (que usa cores), pulsação tibetana e cura prânica (ambos usam meditação e técnicas de autoconhecimento). No verão, chega a faturar R$ 4 mil por mês. E, após a temporada, R$ 3 mil. De fala mansa, ela sabe como vender suas massagens: cobra mais de turistas e negocia preços mais camaradas com brasileiros. O jeitinho zen revela suas passagens pela Índia.


— Comecei a atender na praia por falta de oportunidade no mercado de trabalho. Estou feliz. A massagem é um intercâmbio de energia entre pessoas e lugares. E a praia é um ótimo cenário para exercitar esse conhecimento — diz Passiko, sorridente.

Fabiana Ribeiro
fonte: Jornal O Globo – 12/02/06

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