Os Sete desafios do Trabalhador do Conhecimento


Por José Cláudio Terra, Dr.Uma das mudanças mais profundas no ambiente das grandes organizações é a crescente participação na força de trabalho do trabalhador do conhecimento, ou seja, aqueles profissionais cuja principal característica do trabalho é a produção de intangíveis, isto é, idéias, informações, decisões, fórmulas, códigos, planos, imagens, etc. Esta profunda mudança tem sido, no entanto, apenas mais recentemente analisada pelos teóricos da administração, gurus e empresas de consultoria em gestão.

Modelos e conceitos de gestão que permeiam boa parte das empresas e mesmo escolas de administração pecam por não fazer, de maneira contundente, uma distinção entre o que significa gerenciar trabalhadores mais braçais e gerenciar aqueles que trabalham essencialmente criando, utilizando e transferindo conhecimento.



A própria teoria organizacional, por sua vez, não tem feito um bom trabalho no sentido de caracterizar a dinâmica e os desafios da produtividade e da eficácia dos trabalhadores do conhecimento. O modelo dos 7 Desafios do Trabalhador do Conhecimento, que propomos abaixo, é uma tentativa no sentido de caracterizar de forma estruturada o debate. Esperamos com isso ajudar a repensar modelos organizacionais e de gestão de pessoas na Era do Conhecimento.

1. Operação e AdministraçãoEmbora seja o mais óbvio dos desafios, não poderíamos deixar de começar pelo desafio que todo o trabalhador do conhecimento precisa enfrentar e contribuir: manter as operações correntes rentáveis, eficientes e funcionando conforme normas internas e leis da sociedade.

2. Projetos e TarefasNos últimos 10 ou 15 anos, empresas de médio e grande porte investiram muito na qualificação para a gestão de projetos. Trabalhadores do conhecimento estão invariavelmente envolvidos em múltiplos projetos, algumas vezes com pessoas de outras organizações e outras localidades.

3. Conhecimento e ComunidadesAs responsabilidades dos trabalhadores do conhecimento não se limitam mais à operação e aos projetos que estes estão alocados. Crescentemente, eles são responsáveis também pela construção do conhecimento coletivo da organização. Isto ocorre tanto de maneira mais individualizada via contato direto com subordinados e colegas, como por meio de Comunidades de Prática bem estruturadas.
Os três desafios acima têm a ver com entregas bem específicas para as quais os trabalhadores do conhecimento têm que alocar seu tempo, atenção e esforço diariamente. Embora não ofereçamos aqui regras ou soluções sobre como deva ser esta alocação, é importante para gestores e profissionais ter noção que estas decisões são críticas para os indivíduos e para as organizações. Neste sentido, os mecanismos de reconhecimento e recompensa organizacionais têm que incorporar de maneira bem explícita este desafio inerente ao trabalho do conhecimento.
Os próximos três desafios têm menos a ver com entregas e alocação de tempo e esforço e mais com comportamentos e atitudes. Eles são os seguintes:

4. Mudança e InovaçãoAqueles que trabalham com conhecimento precisam necessariamente aplicar suas habilidades e conhecimentos no sentido de trazer e implementar novos conceitos, produtos, processos e tecnologias para suas organizações. De certa maneira, trabalhadores do conhecimento podem ser, de maneira inequívoca, agentes de mudança e líderes de processos inovadores em suas áreas de influência nas organizações. Não faz sentido se pensar em trabalhadores do conhecimento atrelados ao passado.

5. Cultura e ValoresRepresentar os valores centrais da organização de maneira visível e proeminente por meio de grandes e pequenos gestos, atitudes e comportamentos são, provavelmente, um dos desafios mais importantes e, talvez, um dos desafios menos discutidos dos trabalhadores do conhecimento. Na Era do Conhecimento, cultura e valores estão entre as principais formas de uma organização direcionar as ações diárias de seus profissionais. Cultura e valores, no entanto, não vicejam apenas em memorandos, cartazes e documentos. Eles precisam ser vividos diariamente. É, sem dúvida alguma, uma das principais contribuições dos líderes organizacionais.
Mas, em organizações intensivas em conhecimento em particular, este é um desafio permanente de todos.

6. Liderança e PessoasA capacidade de ensinar, transmitir conhecimentos, posturas e habilidades e se preocupar sistematicamente com o desenvolvimento de capital humano de uma organização é um traço que se deve buscar permanente junto aos colaboradores de uma organização. Empresas intensivas em conhecimento dependem de pessoas motivadas e curiosas. Elas precisam também estar dispostas a aprender constantemente, aprimorando suas qualidades e minimizando suas dificuldades e defeitos.
Os seis desafios acima logicamente já são bastante abrangentes e não facilmente atingíveis simultaneamente. O último desafio talvez seja um dos que mais tem aumentado em importância na última década e por isso é destacado de forma isolada, embora seja bem mais específico que os desafios descritos acima.

7. Tecnologias de Comunicação e InformaçãoNo Século XXI, a habilidade de utilizar de maneira efetiva e eficaz a miríade de ferramentas para encontrar, acessar, organizar, compartilhar, publicar e proteger informações valiosas é um diferencial que alguns profissionais que trabalham com conhecimento detêm. E estas habilidades estão, crescentemente, associadas ao aumento de produtividade individual e organizacional. Este é um desafio, que sem dúvida alguma, deve continuar a crescer de forma acelerada e que representa um importante diferencial para certos indivíduos que disputam seu espaço na Era do Conhecimento.

“Empresa contrata super-homem e mulher maravilha”. Uma análise mais irônica ou mais cética poderia levar a idéia que estamos de fato nos referindo as estes personagens tão conhecidos do mundo animado. Não cremos nisto. Como disse o recém falecido Peter Drucker, o desafio do trabalhador do conhecimento não é cumprir tarefas, mas descobrir e implementar novas tarefas que gerem valor para a organização. Vamos, no entanto, mais além. Os trabalhadores do conhecimento precisam não apenas inventar novas tarefas, mas precisam ter uma enorme habilidade para priorizá-las, executá-las e extrair valor para si mesmo e para suas organizações. Estes são desafios diários. A compreensão profunda desta realidade é altamente importante para todos os profissionais e para as lideranças das organizações do conhecimento do Século XXI.


José Cláudio C. Terra é presidente da TerraForum Consultores. Atua como consultor e palestrante no Canadá, nos Estados Unidos, em Portugal, na França e no Brasil. Também é professor de vários programas de pós-graduação e MBA e autor de vários livros sobre o tema.

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